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Igor Pereira

A Teus Pés: Os Poemas Feministas de Ana Cristina Cesar

Vida 2 min read , March 14, 2021

A Teus Pés: Em homenagem a Ana Cristina Cesar, apresentamos a leitura dos seus poemas interpretados junto com as obras de Bansky.

Poemas da Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

NOITE CARIOCA

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contramão. Suspiros

no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem

nenhum segredo.

MOCIDADE INDEPENDENTE

Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem medir mais as

conseqüências. Por que recusamos ser proféticas? E que dialeto é esse para a

pequena audiência de serão? Voei pra cima e agora, coração, no carro em fogo

pelos ares, sem uma graça atravessando o Estado de São Paulo de madrugada,

por você, e furiosa: é agora, nesta contramão.

CARTILHA DA CURA

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios

ESTE LIVRO

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do

coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two

total., tilintar de verdade que você seduz,

charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a

carapuça.

E cante.

Puro açúcar branco e blue.

Queria falar da morte

e sua juventude me afagava.

Uma estabanada, alvíssima,

um palito. Entre dentes

não maldizia a distração

elétrica, beleza ossuda

al mare. Afogava-me.

RECUPERAÇÃO DA ADOLESCÊNCIA

é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

"NESTAS CIRCUNSTÂNCIAS O BEIJA-FLOR VEM SEMPRE AOS

MILHARES"

Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os pezinhos.

Preparei o chá. Caso ele me cheirasse... Ai que enjôo me dá o açúcar do desejo.

ENCICLOPÉDIA

Hécate ou Hécata, em gr. Hékáté. Mit. gr. Divindade lunar e marinha, de

tríplice forma (muitas vezes com três cabeças e três corpos). Era uma deusa

órfica, parece que originária da Trácia. Enviava aos homens os terrores noturnos,

os fantasmas e os espectros. Os romanos a veneravam como deusa da magia

infernal.

16 DE JUNHO

Posso ouvir minha voz feminina: estou cansada de ser homem. Ângela nega

pelos olhos: a woman left lonely. Finda-se o dia. Vinde meninos, vinde a Jesus. A

Bíblia e o Hinário no colinho. Meia branca. Órgão que papai tocava. A bênção

final amém. Reviradíssima no beliche de solteiro. Mamãe veio cheirar e

percebeu tudo. Mãe vê dentro dos olhos do coração mas estou cansada de ser

homem. Ângela me dá trancos com os olhos pintados de lilás ou da outra cor

sinistra da caixinha. Os peitos andam empedrados. Disfunções. Frio nos pés. Eu

sou o caminho, a verdade, a vida. Lâmpada para meus pés é a tua palavra. E luz

para o meu caminho. Posso ouvir a voz. Amém, mamãe.

19 DE ABRIL

Era noite e uma luva de angústia me afagava o pescoço. Composições

escolares rodopiavam, todas as que eu lera e escrevera e ainda uma multidão

herdada de mamãe. Era noite e uma luva de angústia... Era inverno e a mulher

sozinha... Escureciam as esquinas e o vento uivando... Saí com júbilo escolar nas

pernas, frases bem compostas de pornografia pura, meninas de saiote que

zumbiam nas escadas íngremes. Galguei a ladeira com caretas, antecipando o

frio e os sons eróticos povoando a sala esfumaçada.

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